Biografia

Esse mundo da imagem me persegue e eu o persigo.

Flávio Tavares

O artista com seu quadro "A Pedra do Reino", 1981.
Flávio Tavares pintando "O Reinado do Sol".
O artista em seu atêlie com o jornalista Gonzaga Rodrigues.
Flávio Tavares, 2013 - Foto: wscom

Em três décadas impressionou-me a constante evolução desse artista e a sua capacidade de aprofundar os seus temas básicos e o refinamento dos instrumentos. Certamente, hoje, Flávio Tavares está entre os mais importantes artistas do Nordeste e tem uma posição respeitável entre os artistas brasileiros figurativos de sua geração. - Jacob Klintowitz, Crítico de arte.

Jacob Klintowitz, Crítico de arte

Pintando, como sempre pintou

Nascido em João Pessoas, Paraíba, em 15 de fevereiro de 1950, Brasil, Flávio Roberto Tavares de Melo, neto e filho de artistas – seu avô paterno, Pedro Damião, era um notável fotógrafo e seu pai, Arnaldo, além de renomado médico, dedicava-se, nas horas vagas, ao desenho – a bico-de-pena -, tendo ilustrado diversos livros e, ao longo de décadas, produzido centenas de vinhetas para jornais do nosso Estado.

Em criança, Flávio já mostrava genuína intimidade com o desenho e a pintura, sendo inicialmente orientado pelo Dr. Arnaldo e, desde então, não parou de exercitar-se, de indagar e experimentar. Frequentou o curso de pintura oferecido pelo artista Raul Córdula, no Setor de Arte da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e, ainda aos 18 anos, passou a absorver os ensinamentos do pintor e gravador Hermano José, que àquela época já era um laureado artista. Tavares terminara seus estudos secundários e logo ingressara no curso de sociologia da UFPB, o qual abandonaria ainda no terceiro ano para dedicar-se em tempo integral ao ofício artístico. Tinha pouco mais de vinte anos e já havia exposto no Recife, Rio de Janeiro e São Paulo, onde, em 1976, lançou o álbum de desenhos O Pavão sem Mistério com o texto de apresentação do ilustre cartunista Ziraldo. Nesse mesmo período, estudaria pintura nos Estados Unidos da América (Universidade de Yale; Universidade de Connecticut e Simon Rock College, onde, inclusive, ministrou workshop), e em Caiena (na Guiana Francesa). Em todos esses lugares, aproveita para realizar exposições.

A seguir, ingressa no mercado de arte da Alemanha, pelas mãos do casal Jürgen e Maria do Carmo Vogt, ela paraibana e presidente do Instituto Cultural Teuto-Brasileiro em Berlim e que, em breve, se tornaria amiga e agenciadora das obras de Flávio Tavares na Alemanha. Neste país, sua primeira exposição individual ocorreu em 1981, em Berlim, na galeria Laden, com apresentação da Sra. Karoline Müller, mostra a partir da qual viria conseguir não só um substancial mercado de arte, mas ver surgir, pouco a pouco, um expressivo número de colecionadores das suas obras, sendo o Sr. Stahl um dos primeiros a integrar essa lista. Poucos anos mais tarde, Tavares exporia em Jerusalém (Israel) e, desde então, voltaria a realizar mais quatro mostras na Alemanha, contando sempre com o apoio e assessoria do casal Vogt, a quem Flávio atribui fundamental importância para a difusão de suas obras em terras germânicas. Laureado diversas vezes, Flávio Tavares participou de incontáveis e importantes mostras em grandes cidades do Brasil e do mundo, incursionando amplamente pelo universo das artes, tendo se expressado com sucesso nas mais diversas técnicas (pintura, desenho, aquarela, escultura em pedra e em madeira, gravura em metal, xilo e litogravura) e, não bastasse tudo isso, pintou cenários para peças teatrais, além de ter ministrado vários cursos, workshops, palestras para um sem número de estudantes de arte e, ainda, produzindo mais de dez painéis e murais na Paraíba e em outros estados do Nordeste brasileiro.

Artista sintonizado com seu tempo, Flávio Tavares iria produzir uma série de desenhos criticando a ditadura militar nos “anos de chumbo” no Brasil (1964-1984), e ainda hoje produz charges que aludem aos problemas políticos e sociais da Paraíba, do Brasil e do mundo, sem perder a verve e sempre com um traço irrepreensível. É bem verdade que nos desenhos preto no branco essas mensagens ficam mais evidentes, mas em suas pinturas, por vezes, detectamos numa mesma tela dois planos aparentemente dissociados e cuja simbiose resultará num discurso pictórico cheio de crítica social, política ou ainda de denúncias que o sistema muitas vezes se recusa a tomar conhecimento, por mera comodidade, de tal maneira é sofisticada e misteriosa a ilustração na arte de Flávio Tavares que, algumas vezes, ficamos a nos indagar se seriam mais eloquentes as mensagens em seus trabalhos com muitos personagens e elementos compositivos ou o “silêncio” das suas obras mais despojadas, com uma trajetória desse quilate, constatamos tratar-se, sem dúvida, de um artista ímpar que certamente ainda tem muito a nos mostrar, graças à sua criatividade e ao seu pródigo vocabulário imagético.

Eudes da Rocha

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